Contador, um Delator do Cliente?

por Gilmar Duarte

As imposições de cima para baixo sempre dão certo quando os subordinados abaixam a cabeça, mas quando decidem lutar contra as injustiças conseguem reverter qualquer processo, independente do estágio em que este se encontra.

Já é do conhecimento de todo contador que, por meio da Lei 9.613/1998, o Governo Federal criou o Conselho de Controle das Atividades Financeiras (COAF) com os objetivos de – ao menos é a justificativa – combater o crime de “lavagem de dinheiro” e o financiamento do terrorismo.

Para alcançar os objetivos de maneira mais fácil e com baixo custo, o Governo Federal arrolou no campo de fiscais, porém sem qualquer remuneração, uma série de profissionais que desempenham atividades não governamentais tais como corretores imobiliários e de seguros, agentes de factoring e os contadores. Isto mesmo, os contadores.

Este rol de profissionais incluía os advogados que, inconformados com a decisão autoritária do Governo Federal, se mobilizaram. “Transformar o advogado em delator de seu próprio cliente é imoral, subverte o sistema de defesa, macula a relação de confiança indispensável à atuação profissional e viola inúmeros princípios constitucionais”, disse Sérgio Rosenthal, criminalista e presidente da Associação dos Advogados de São Paulo.

Os contadores sequer tomaram conhecimento do que estava acontecendo quando se depararam com a Resolução 1.445/2013, do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), que obriga a classe a delatar o próprio cliente. Alguns, injuriados, tentaram se mobilizar, mas já não era mais possível, pois alguns “líderes” da classe já tinham decidido que seria assim mesmo.

Como podemos imaginar que contadores e empresários contábeis que estão nos representando junto ao CFC podem pensar assim, haja vista o exemplo dos advogados que lutaram e não aceitaram esta submissão? Que tipo de representantes são estes que temos lá em cima? Não foi muito difícil descobrir que a maioria é formada por professores que nada tem a perder. Primeiro porque não têm clientes, mas emprego fixo com estabilidade.

Segundo, porque não conhecem a realidade dos serviços de contabilidade e, terceiro, porque não estão comprometidos com a classe. “Os advogados são pessoas físicas que se submetem à regulação de um órgão próprio regulador, que é a Ordem dos Advogados do Brasil”, afirmou Rosenthal. Os contadores também têm um Órgão (CRC), mas precisa de mais sintonia com a base.

E agora? Além do ingrato serviço de delator, quem é que vai remunerar o empresário contábil para executar os serviços de informante para o Governo? O próprio Governo, o nosso cliente ou teremos que, mais uma vez, assumir o prejuízo?

O prazo para a entrega da Declaração Negativa venceu no dia 31 de janeiro. Quem não observar a obrigatoriedade poderá ser penalizado pelo COAF com o apoio do CFC.

A classe contábil do Brasil é composta por mais de 300 mil profissionais e 80 mil empresas e se desejar se unir para lutar contra as aberrações propostas pelos nossos “representantes” terá uma força que certamente desconhece. Até onde vamos suportar?

Gilmar Duarte é palestrante, contador, diretor do Grupo Dygran, autor dos livros “Honorários Contábeis” e “Como ganhar dinheiro na prestação de serviços” e membro da Copsec do Sescap/PR.

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Gilmar-Duarte

10 comentários em “Contador, um Delator do Cliente?

  1. Nós, Contadores, não temos representação, o que temos é um punhado de CRCs espalhados pelo Brasil e um CFC inoperante, só sabem impor obrigações aos contadores, nunca os defende, apenas dizem amem a tudo, a maior preocupação é arrecadar e fazer média no congresso para sua promoção pessoal, defender a classe que seria um dos objetivos maiores não o fazem.
    Se esquecem que estas coisas aviltam e diminuem a alto estima e acabam aos poucos com a classe, conheço muitos que estão deixando a profissão para atuar em outros ramos de atividade, justamente por causa disso, já não bastasse as exigências esdruxulas que o contadores tem que cumprir sem conseguir repassar aos clientes.
    Aí todo início de ano recebemos a contribuição sindical sob o pretexto de que é para o fortalecimento da classe, nunca vi tamanha incoerência.

    1. Perfeito , Carlos.
      Estamos, a cada dia, mais atarefados e tanto o governo como os empresários nos olham como se fôssemos culpados. Um (fisco, governo) nos culpa pelo empresário sonegar e o outro (empresário) por enviarmos altos valores de tributos a serem pagos, sem contar tanta burocracia. Estamos no meio de uma guerra onde somos alvos das duas partes. E quem intervém por nós? Ninguém!! Pagamos R$ 500,00 (aproximadamente) todo ano ao nosso conselho e temos a reposta que ele não competente para tal pleito. Aí te pergunto: Quem fará isto por nós? Teremos que pagar mais uma associação? Somos prejudicados em tudo, esta é uma classe muito desvalorizada, e não era pra ser assim. Se não fôssemos nós este país parava, nós somos o vínculo do governo às empresas. Ajudamos ao governo com tantas obrigações acessórias e auxiliamos nossos clientes com tanta alteração na legislação, tanto trabalhista como tributária, temos que nos atualizar diariamente para conseguirmos trabalharmos de forma correta, assim mesmo não é fácil; O governos cria obrigações que nem ele mesmo sabe como proceder com tais sistemas, nos jogam goela abaixo como se simples fosse (alegando que deu prazo), se já não bastasse os outros “milhares” de “speds” e obrigações que temos que entregar.
      Enfim… já escrevi demais!! Rs
      Mas… está cada dia mais complicado seguir nesta profissão, os profissionais que querem trabalhar corretamente estão vendo, a cada dia que passa, que esta profissão não vale a pena. Infelizmente!!! Pq apesar de todas complicações, a exercemos com prazer, mas vamos ver até onde isso vai. Espero que alguém intervenha por nós ou que consigamos unir a classe e fazermos isso nós mesmos. Se preciso for, contem comigo!!

  2. A classe contábil me surpreende cada dia mais, não praticam um valor de tabela dos honorários, que seria no mínimo bom para quem está começando quanto pra quem já está consolidado no mercado, brigam entre si, se submetem e deixam se submeter a tanta coisa pela falta de união (não precisa ser amigo de todos os profissionais desta área), falta razoabilidade em todos os aspectos da pirâmide.
    Imagina se não precisasse de registro no CRC, que indiretamente obriga às empresas a terem contador…. Ops, até quanto a isso o governo vem tratando de dar um jeito de ajudar (sqn), coloca no site do MEI que ele não precisa de Contador…. FAZ ME RIR governo (minúsculo mesmo)! É tanta gente sem conhecimento técnico e teórico querendo abrir empresa que não vejo Luz sem o Contador. Isso abre brecha para desvalorização da classe, que deveria buscar remuneração por trabalhar para o governo.
    #CRCATIVOJA
    #UNIAODACLASSE

  3. Perfeito seu texto. Realmente a legislação – e a incompetência dos dirigentes do CFC e a inércia da grande maioria dos contadores – fez com que todos os contadores passassem a ser vistos como delatores.
    Quando soube dessa Lei estava no ambiente do CRC-PR e, imediatamente fizemos um abaixo assinado a ser encaminhado ao Presidente do CFC. Claro que nossa atitude mostrou-se pífia. Não se consegue vencer quando os mandantes são “pau-mandado” das “otoridade”.
    Passamos a adotar um critério muito mais rigoroso na contratação de clientes e serviços para não passarmos pela necessidade de tomarmos esse tipo de decisão (denúncia).
    Com o passar do tempo observo que:
    – Apesar de existir desde 1998 o COAF não conseguiu diminuir o volume de transações ilícitas realizadas em dinheiro (lembre-se do dinheiro em cueca)
    – Essa obrigação passou a ser aplicada a partir de 2014 e, até hoje, não vi nenhum resultado prático. Ou será que parte dos contadores comunga com o “malfeito” e se locupleta com isso?
    Terrível o momento que temos vivido nos últimos 50 ou 60 anos. O Brasil transformou-se num terreno fértil aos bandidos, terroristas e criminosos em geral. Sinto-me como um novo Dom Quixote recomendando, e até fazendo ressalvas, que os clientes paguem corretamente seus tributos e adotem as boas práticas gestoriais. Isso parece – à maioria deles – algo surreal; ser honesto num país onde todo governante, por princípio é desonesto!

  4. Parabéns!!
    Acho que é o sentimentos de todos os profissionais atuante da classe contábil.

  5. Até que enfim… Eu achava que só eu pensava diferente. O classe mal representada!!! Já faz anos que não voto em nenhum conselheiro em eleição. Então, os membros do CFC não atuam em escritório? Por isso que nenhum deles me respondeu até agora a famosa pergunta… Você sabe fazer CAGED??? Agora entendi, porque o presidente do CRC, do SESCON, não responde a minha dúvida. Eles não sabem mesmo, fazer CAGED. E pior, não assume que não sabem…

  6. É tamanha a ignorância de se colocar a culpa em seus representantes de classe. Haja vista que a Lei é para ser cumprida dentro dos seus limites. Logo, qualquer profissional que se preze ou que tenha a ética profissional acima dos seus nteresses pessoais, jamais poderiam imputar aos professores este fardo de ignorância e incompetência. Para atualizar os dados do Senhor acima indignado, eu peço que onde se lê 300 mil o correto é 500 mil e onde se lê 80 mil, já passam dos 100 mil. Realmente o indignado conhece os seus pares.
    Não posso me calar com tanta ofensa desnecessária. Sou contador e professor.

  7. Tiro o chapel para o autor deste texto!! Parabéns! Nós profissionais precisamos nos unir porque infelizmente nossos representantes deixam muito a desejar!! Essa declaração da COAF é um absurdo!!

  8. Na verdade, o Conselho Federal de Contabilidade “amarelou” diante do Ministério Público Federal, lamentavelmente.

  9. Na realidade o contador está tão ocupado com as porcarias que veem de cima, que não consegue perceber e lutar contra este tipo de aberração, deixando sempre a cargo dos representantes. Que por sua vez não faz o dever de casa; traindo assim a classe contábil.

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