Desventuras e Aventuras de um Contabilista

por Júlio César Zanluca – contabilista e coordenador dos sites Portal Tributário e Portal de Contabilidade

Exerço a profissão contábil há mais de 30 anos. E, nos últimos dias, concluí ainda não vi tudo, pois o descalabro que as autoridades nacionais tratam os contabilistas é aviltante. De forma repugnante, uma profissão tão digna é tratada coletivamente como escravos sem qualquer direitos.

Diariamente, despejam dezenas de resoluções, atos normativos, convênios e outras parafernálias, para serem assimilados “a galope” por nós, contabilistas, auditores, consultores, escrituradores fiscais e outros profissionais do ramo.

No final de 2015 e no início de 2016, foram dezenas de alterações súbitas, entre as quais as novas formas de cálculo do ICMS nas operações interestaduais, elevação de alíquotas de tributos federais, estaduais e municipais, além da criação de novas obrigações acessórias (como a declaração eletrônica para prestação de informações relativas ao ICMS devido por substituição tributária, recolhimento antecipado e diferencial de alíquotas). Como absorver isto em tempo recorde e ainda repassar estas informações aos empresários, nossos clientes?

Não bastassem as súbitas mudanças, observa-se a inadimplência cada vez maior da clientela. Sem dinheiro, as empresas deixam de pagar primeiramente os tributos, depois os fornecedores (incluindo os honorários contábeis), e finalmente, num colapso total, simplesmente caloteiam os assalariados. Claro que estes empregos vão todos para a China, para o Chile, para países mais amigáveis com o investimento produtivo.

As anuidades do CFC/CRC, taxas e outros mecanismos de arrecadação sobre a profissão são reajustados anualmente, independentemente de nosso poder aquisitivo. Enquanto milhares de contabilistas perderam o emprego e a renda em 2015, os órgãos “federais” esbaldam-se numa arrecadação certa e tranquila, garantida “por lei”…

Bom, nestes 30 anos convenci-me que não vi tudo. Mas poderia ser pior? Sinceramente, não sei. Na minha ideia, os planos econômicos, pacotes fiscais, desindexação, extinção da correção de balanço, PIS e COFINS não cumulativos, CPMF, taxas disso, daquilo, de outros e outras imbecibilidades dos governantes já haviam provado que a administração pública é notoriamente impiedosa com a nossa profissão.

Infelizmente, a imprensa nacional também nos solapa, atribuindo termos espúrios ao nosso trabalho, como “contabilidade criativa” – veja uma análise detalhada no artigo “Contabilidade Criativa?” de nosso colega Fernando Alves Martins em https://boletimcontabil.wordpress.com/2015/03/03/contabilidade-criativa/.

Só resta repudiarmos, em público, tão grave ofensa sucessiva àqueles que garantem ao empresário a aplicação das normas contábeis, tributárias, fiscais e previdenciárias, que sucumbem ao peso de um Estado verdadeiramente falido (financeira e ideologicamente) e clamar para que “algum dia”, os ditos “órgãos de representação de classe” finalmente tenham ânimo de exigir um tratamento mais digno a uma profissão solapada pela ânsia burocrática e arrecadatória dos governos federal, estaduais e municipais.

Contabilistas: protestem!

8 comentários em “Desventuras e Aventuras de um Contabilista

  1. Ótimo seu comentário, Nosso país, tão rico, com tantas possibilidade, se tornou uma verdadeira esbórnia na mão destes burocratas de plantão.

  2. Prezado amigo contabilista: Belo texto no qual você explanou da melhor forma possível o que é a vida dos contabilistas hoje neste País, é uma profissão em extinção, poucos ficarão futuramente nesta profissão, como dizer a um jovem que ele vai ter que saber sobre Imposto de renda, previdência, ICMS, IPI, ISS, IOF, e nnnn coisas?????, viver no caos???????, quem das novas gerações vai interessar-se por isto, só aqueles que optarem por dois motivos: ilusão ou insanidade.

  3. Pura verdade neste texto, tenho 29 anos e cada vez mais tenho nojo desse governo e da profissão contábil. Os conselhos da classe querem apenas arrecadar e fiscalizar o que não é necessário, ninguém vai atrás daqueles que prostituem a contabilidade, não apresentam declarações e não sabem sequer o que é debito e crédito. É inadmissível o que os contadores vivem hoje, somos reféns do nosso silêncio e dos nossos “superiores” denominado governo e por falar nele criar a legislação é fácil, mais fácil ainda é fiscalizar após 5 anos e o contador que têm em alguns casos apenas dias de prazo para ler, interpretar e colocar em prática?? As esferas federais, estaduais e municipais que me perdoem, mas vocês são FRACOS, um estrume para a sociedade brasileira.

  4. De longe, me lancei na carreira contábil. Me vi diante de um monstro chamado ESTADO. Com tantas obrigações e tantas loucuras me espelhava em pessoas ao meu redor, mas claro, totalmente insanas, sem vida, fechados e lacrados em seus escritórios. Me distanciei disso. Fui procurar novos desafios e nova vida. Mas aqui estou, novamente incrustado nesta minha primeira escolha, não queria, mas ela me escolheu! Então se é para ser será…10 anos depois estou na ativa, e claro, recordando um tanto que deixei para trás…mas penso para frente…ó Estado cruel, nos deixe viver, nos deixe procriar, nos deixe amar, nos deixe livres da sua insanidade.

  5. Infelizmente essa tem sido nossa dura realidade. O CFC fica apenas editando normas e velando pela arrecadação junto aos Conselhos Regionais, mas pouco faz para defender o contabilista dessas mudanças fiscais e situações burocráticas que nos colocam em “risco” perante os clientes.

  6. O colega tem razão. Mas devemos começar a nos valorizar. Desde a faculdade é que tento incutir na cabeça de todos os colegas a valorização de nossa profissão. Grande parte dos empresários não nos dar o devido valor. Eu me lembro que em diversos casos de colegas que tem escritórios que tem dificuldades em receber os honorarios. Acompanhei diversos casos em que existia a dificuldade de recebimento dos honorários, eram sempre a última responsabilidade honrada pelos seus clientes. Pagavam as suas compras, folha de pagamento, impostos, fretes e se sobrasse algum pagavam os seus contadores. Lancei uma idéia que deu certo. O índice de inadimplência dos empresários eram de 78,97% e decidimos fazer o seguinte: 1. notificar todos sobre os seus débitos; 2. aqueles débitos anteriores poderiam ser negociados de acordo com as possibilidades de cada empresário; 3. a partir daquela data não poderiam mas atrasar sob pena de quebra contratual. A idéia deu certo e conscientizou os empresários que contador tem contas para pagar, folha de pagamento; tem impostos; tem familia que é sustentada por ele. VAMOS NOS UNIR PORQUE SOMOS FORTES E NECESSÁRIOS…

  7. NA VERDADE A CLASSE CONTÁBIL VIVE HOJE “COMO ESCRAVOS” PORQUE SOMOS OBRIGADOS PELOS ÓRGÃOS FEDERAIS, ESTADUAIS E MUNICIPAIS A TRABALHARMOS GRATUITAMENTE, SE QUISERMOS SOBREVIVER DA PROFISSÃO, TÃO DIGNA, MAS MENOSPREZADA, ESPOLIADA E SEM PRESTÍGIO PELOS ÓRGÃOS QUE USUFRUEM DOS NOSSOS SERVIÇOS.

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